Reaprender a Me Amar: Entre o Fim de um Relacionamento e o Início de Mim
Terminar um relacionamento é, como diria minha vó, osso duro de roer. Depois de dez longos anos ao lado de quem eu achei que seria o amor eterno da minha vida (nos conhecemos três meses antes do meu aniversário de dezoito anos), nós nos deparamos com muitas questões mal resolvidas na vida individual de cada um. Assuntos chatos que tem a ver com problemas mentais, problemas na família, “desencontros” como ele gostou de pontuar. E as brigas já estavam perdendo a criatividade de tanto que aconteciam. Optar por conhecer melhor a nós mesmos e resolver nossas questões pessoais separados, foi a opção mais viável. Escrever aqui sobre isso pode parecer algo simples, mas a prática é bem mais difícil do que a teoria. Quando estamos ao lado de alguém por tanto tempo parece que sua própria identidade é afetada, você se adapta completamente à vida do outro, à rotina, aos jeitos e gostos, ouso dizer que até a forma como você se vê é capaz de mudar.
Suas roupas são compradas para agradar a ele, seu corte de cabelo, suas unhas, seu estilo pessoal muda de acordo com o estilo dele e vice-versa. Você até mesmo deixa de praticar certos tipos de interação com outras pessoas, porque vocês só saíam juntos e nunca sozinhos e, com certeza, era ele quem falava por você, ou você quem decidia por ele. No meu caso, devido ao tanto de tempo que passamos juntos, uma questão muito forte tomou conta de mim: Como vou conseguir me relacionar com outras pessoas? Como se inicia uma conversa com outro homem? Será que eu vou me relacionar novamente, ou aqui descansa em paz meu coração?
Esse drama tá pouco, faz mais.
Tudo estava tão recente e confuso que entrar em outro relacionamento seria o mesmo que repetir tudo de novo, não seria? E qual a garantia de que a pessoa que eu aceitasse iria me tratar melhor dessa vez? Se depois de dez anos eu percebi que não conhecia mais o meu namorado, em um date com um estranho também não teria como saber totalmente a respeito daquele ser.
O medo tomou conta de todas as minhas capacidades de raciocínio e me senti como uma criança, insegura e indefesa. A princípio eu tinha medo só de pensar em trazer outra pessoa para minha vida, imagine só, outro homem na minha casa? Ele vai achar que é dono de mim? Vai se apossar do meu banheiro? Sujar minha cozinha? Eu nem sequer tenho intimidade com ele para ele fazer isso. Me fechei nessa ideia de que qualquer um, mesmo que fosse o príncipe Harry, não estaria à altura de ser uma boa pessoa para mim. Depois vieram os medos mais aleatórios, tipo: e se descobrirem que eu estou morando sozinha agora? Será que estou correndo algum perigo? Será que vou ter que mentir que ainda estou com meu ex para os meus vizinhos? Acho que nunca mais vou poder sair de casa, é mais seguro me trancar aqui dentro!
Por sorte, minhas amigas me olharam como a maluca que eu estava sendo e disseram que eu precisava reaprender a socializar, conhecer pessoas novas só por conhecer, eu não precisaria necessariamente me relacionar com ninguém (foi o que elas me prometeram). Ficar sozinha em casa pensando besteiras já estava passando dos limites. Me apeguei a isso e depois de muita resistência, eu reagi.
Criei coragem e instalei um desses apps de relacionamento.
Fui com a mentalidade de apenas socializar, e mesmo assim morrendo de medo dos contatos iniciais. Escolhi um app onde você podia selecionar pessoas a partir dos seus gostos, fazendo testes e mais testes de personalidade, e só com isso pude me conhecer um pouco, e confesso, até que foi divertido. Ao mesmo tempo que quanto mais demorava para eu falar com alguém, mais eu queria desistir. Quando finalmente aparecerem pessoas na tela do meu celular para eu dar “match” ou não, eu quis fugir.
Chegou até aqui e vai amarelar?
No caso eu não levei em conta a aparência física de ninguém, meu interesse era na personalidade, no interior da pessoa, então eu li com muita atenção o perfil de cada um que selecionei. Selecionei no máximo umas cinco pessoas no primeiro dia e desliguei o celular.
No dia seguinte, dezenas de solicitações e finalmente comecei a interagir. Aquele papo clichê “Oi, tudo bem? Tudo e você?” e quando percebi, o medo que eu estava sentindo era completamente desnecessário. Senti ainda que deveria ter começado a fazer isso muito antes ao invés de ficar sofrendo por algo tão imaginário.
Ócios de uma mente criativa.
Os primeiros caras a se interessarem por uma brasileira são os gringos. Mas disso eu já tinha noção, pois já tive muita experiência interagindo com gringos no passado, o que foi ótimo para minha seleção atual pois eu já sabia que não queria falar com turcos e muito menos com russos. Os franceses são puramente mentalidade poluída, enquanto os italianos podem ser muito românticos e dramáticos na mesma proporção.
Bom, de qualquer forma eu não estava ali para criar laços fixos com ninguém, então me permiti conversar com um francês, um italiano, um grego e um alemão.
Treinar o inglês, né, gata?
Só não deu para escapar das segundas intenções de nenhum deles, e quando me deparei com a “temperatura” das conversas, percebi que não estava tomando o rumo que eu queria e bloqueei todos eles. Foquei em conversar com os brasileiros, porque acredite ou não, nós brasileiros temos muito mais senso de educação e limites do que os estrangeiros.
Acredito que pelo fato de os estrangeiros pensarem que nós vivemos em “ritmo de festa”, mas somente um brasileiro é capaz de nos conquistar apenas com a boa lábia e a inteligência do tipo de afeto que uma mulher latina gosta. Não são todos, é claro, por isso vai da nossa inteligência escolher bem o tipo de pessoa que queremos conversar.
Mas e sobre a dificuldade que é se permitir receber afeto após tanto tempo com a falta dele? Por exemplo, toda minha desconfiança, sofrimento por antecedência, limitações impostas antes de interagir, tem mesmo a ver com aquilo que uma relação acaba se transformando a longo prazo, ou tem a ver com o meu reaprendizado que ainda não aconteceu?
Sabemos que uma relação precisa de manutenção e prevenção constante se quisermos que ela dure, mas e esses casais que duram a vida inteira? O que eles fazem de diferente que eu não fiz?
Os homens desses casais, tem algum tipo de criatividade extracurricular que só é designada por alguma benção ao nascer, ou eles também não sabem o que fazer muitas das vezes e se perdem assim como nós? De onde surge o interesse deles de manter um relacionamento por tanto tempo?
As mulheres desses casais duradouros, poderiam por favor me falar onde foi que encontraram esses homens?
Piadas a parte, meu maior aprendizado disso tudo foi que um recomeço afetivo só é possível se você com certeza sente afeto por si mesmo, e talvez tenha sido esse o meu problema por tanto tempo. Algo me diz que esse é o problema atual de toda a sociedade — a falta de amor próprio. Não sou uma pessoa que cultiva coisas ruins sobre si mesma, mas também não dei todo o carinho e atenção a mim quando mais precisei, e muito se deve ao fato de ter doado de mim para meu ex por completo.
O medo de me relacionar novamente com alguém estava muito mais alimentado pelo medo de me anular novamente, e isso inclui principalmente anular os meus próprios limites.
Certa vez assisti uma palestra sobre autoconhecimento de uma moça muito bem apessoada que disse:
“Investir em você é reprogramar a sua mente e eliminar os padrões que foram impostos em você desde que nasceu. Se colocar em primeiro lugar poderá trazer frutos tão grandes, que você será ainda mais capacitada a ajudar e amar outras pessoas. Quem não gostaria de cuidar e de ter um relacionamento saudável com quem se ama e com a segurança de estar bem resolvido em todas as áreas? Tudo isso é possível, e começa na nossa mente.”
E no fim, percebi que o meu recomeço precisa ser de dentro para fora, afinal não existem formas de fazer uma pessoa se amar, e muito menos te amar. Ela precisa querer isso por conta própria. Se um dia eu permitir que outra pessoa entre em minha vida será porque eu reaprendi a me amar e a impor os meus limites, e só assim eu terei a certeza de que serei bem cuidada, porque eu saberei como é ser muito bem cuidada por mim mesma.
E agora, por onde começar a se amar? Vocês acompanharão de perto e em tempo real minhas experiências nas próximas edições, amigos leitores. Nos vemos em breve!