Ex policial que recomeçou – EDIÇÃO 1
Tem gente que recomeça porque quer, tem gente que recomeça porque precisa. E tem gente, como o Matheus, que recomeça porque não tinha mais como continuar do mesmo jeito…
Ele chegou ao fundo do poço usando farda, se recuperou com um crachá CLT e uma alma um pouco mais leve. A história dele é sobre coragem. Mas não a do tipo que segura arma na mão. É a coragem de soltar, de se permitir ser vulnerável, de procurar ajuda e admitir: “não tá tudo bem.”
Nesta conversa com a REVISTA REVISTA, Matheus revisita suas crises, seus silêncios e o processo de entender que o trabalho que ele fazia não representava mais quem ele era. E mais do que isso: que ainda era possível ser feliz, mesmo depois de tudo. Prepare-se: essa entrevista não é só sobre mudar de carreira. É sobre sobreviver a si mesmo. E renascer.
Matheus: Agradeço a oportunidade e o espaço para falar. É sempre bom compartilhar a história, conversar… Quem sabe até inspirar ou plantar a semente que muda a vida de alguém, como mudou a minha. Sou Matheus, tenho 34 anos, eu estou vivendo um recomeço na parte profissional, mas que afeta também a parte da vida pessoal como um todo. Acho que eu sou uma prova viva de que o reinício é muito bom e que a gente não pode ter medo de ser ousado e nem de tentar meios para ser feliz.
RR: Como era a vida antes de você estar vivendo esse seu atual recomeço?
Matheus: Eu tinha uns dezesseis, dezessete anos e tinha o sonho de ser policial, entrar nessa carreira para fazer a diferença. Com certeza eu tive a inspiração da minha mãe que é vigilante, então, eu já tinha esse contato com a segurança e coisas do tipo. Ela trabalhava armada e eu achava super legal, mas isso muito na visão de uma criança mesmo. Com 18 anos, no terceiro ano do ensino médio, eu comecei a ser concurseiro e com 19 anos eu já estava na academia de polícia. Aos 20 já era um policial formado. E é muito louco pensar nisso, eu era muito, muito novo. Era um poder muito grande para uma pessoa tão nova, tão inexperiente, com 20 anos de idade já nas ruas, resolvendo problemas de gente muito mais velha, seja numa briga na rua, num acidente de trânsito… era complicado. Mas eu senti a empolgação que só um jovem de 20 anos sente, a tal da garantia da estabilidade eterna, o poder social que aquilo traz, a imagem, o status perante os olhos de todos, você não para pra pensar nos pontos negativos, na verdade. Acho que todos na juventude não param pra pensar em nada, a gente só vive o máximo que a gente pode experimentando a vida, tipo “Nossa, isso é ser adulto! Que incrível!”. Vemos só as partes boas de forma muito intensa.
RR: Quanto tempo depois de já estar trabalhando começou a cair sua ficha de que algo não estava certo?
Matheus: Acho que com quatro anos de polícia, mais ou menos. E não foi à toa, houve uma situação lá de perigo, sendo bem genérico, em que eu tive que passar por psicólogo interno. E eu sempre fui a pessoa que pensava: “Psicólogo é muito legal, mas não pra mim”. Mas nessa primeira consulta, com o psicólogo da polícia mesmo, que foi meu primeiro contato com um psicólogo na vida, já foi plantada a sementinha em mim. Eu lembro de algumas perguntas que ele fez do tipo “Qual seu hobby?” e me fez questionar, porque eu basicamente trabalhava, ia pra casa e não fazia mais nada. Minha vida era só trabalho e isso começou a trazer reflexões sobre “Quem é o Matheus?”, “O que estou fazendo com minha vida?”, “É isso mesmo que me define?”.
RR: Você pode compartilhar algumas dessas situações que você vivia?
Matheus: Posso dizer que antes eu não tinha noção do que é realmente a miséria, ou então do que droga pode fazer com a vida da pessoa, ou a violência. Porque eu não tive isso, não sofri violência dentro da minha casa, mas ver o que um pai pode fazer para um filho, por exemplo, começou a me marcar e me fez crer que “cara o mundo é uma merda…” Eu só via a parte horrível da sociedade, porque eu tinha que estar presente em situações de violência, morte, assalto, acidente. Eu pensava que iria morrer antes de chegar aos trinta e isso começou a me gerar pânico, desespero e o sentimento de “talvez eu não esteja melhor nesse emprego como eu achei que eu estaria”.
RR: O que que te motivou a continuar ali mesmo tendo aquele primeiro contato com o psicólogo?
Matheus: Eu tive aquele primeiro contato, mas meio que voltei à estaca zero pois continuei fazendo trabalho na rua. E nisso, eu decidi voltar pro interior, porque eu trabalhava na grande São Paulo. Só que voltar pro interior também não ajudou, porque fui baixando a guarda, fui aquietando mais nas atitudes e piorando nos pensamentos. Então comecei no autodiagnóstico de pensar: “Tem, de fato, algo de errado comigo”. Procurei ajuda de psicólogo que me encaminhou para psiquiatra, e afirmaram que eu estava mal. No início o diagnóstico foi de depressão, porque há aquele equívoco de diagnosticar o paciente somente no momento que ele aparece triste, isso trouxe ainda mais risco para mim que tenho, na verdade, bipolaridade, porque eles me receitaram antidepressivos e isso é bem prejudicial. Então você tem que ter um acompanhamento constante, mesmo quando você está bem, porque é quando você não quer ir ao médico, quando você acha que está curado, que está bem, é quando eles precisam te conhecer. Por completo, não só nos momentos ruins. Eu tive todas essas etapas, “Não tô bem. Tá tudo bem”. Saúde mental é difícil, precisa de acompanhamento constante para ter progresso mesmo.
RR: Você foi diagnosticado pelo psicólogo da polícia com bipolaridade?
Matheus: Não, eu fui ao médico particular. Quando você passa num médico da polícia, você tem que ser avaliado pela junta interna e, falando em português claro, a junta interna da polícia é do Estado e eles defendem os interesses do Estado. Então no primeiro momento eles te afastam, tiram a arma do policial, mas eles querem te colocar pra trabalhar de novo o quanto antes, mesmo sabendo que você não tá bem, porque não é interesse do Estado ter um profissional, mesmo que instável, afastado. Os psicólogos da polícia foram importantes pra dar esse start em mim, mas todo meu tratamento foi por fora. E meu diagnóstico foi por conta de uma crise maníaca que aconteceu quando estive internado num hospital psiquiátrico por quatro dias. No primeiro dia, eu fui internado num estado depressivo muito sério e, dois dias depois, eu já estava muito eufórico, feliz, dando risada, sendo o Matheus mais “normal” do dia a dia. Nessa eles entenderam na hora e falaram: “Provavelmente é transtorno bipolar”, foi então que iniciei o tratamento.
RR: Você pode afirmar então que não tinha esse transtorno antes e que foi algo que você adquiriu ali, trabalhando?
Matheus: Mesmo que não fosse a causa, no mínimo seria o gatilho. Eu decidi brigar internamente acionando a justiça para que isso fosse reconhecido e eu tivesse meus direitos, alegando a relação do trabalho com a questão da doença. Demorou muitos anos esse processo e, ao passar por um médico do Estado que defende os interesses do Estado, ele me avaliou, concordou que eu tenho Transtorno Bipolar e “beleza, é isso mesmo, ele pode continuar trabalhando”. Por eles eu voltaria a ter porte de arma mesmo com minhas condições emocionais. Antes dessa resposta deles eu fui realocado para um trabalho interno, para uma área de imprensa que era algo que eu gostava bastante, mas não tinha plano de carreira, não poderia me promover e teria que ficar nessa pro resto da vida. Então, o que restou pra mim? Literalmente só cabia a mim falar sim ou não para algo que não me pertencia mais, querer mudar de vida. E foi o que eu fiz. Depois daquela resposta para mim foi a gota d’água, eu entrei com o pedido de exoneração.
RR: As pessoas ao seu redor, colegas de trabalho ou até mesmo as pessoas da sua família, elas entendiam a sua decisão?
Matheus: Só não digo que me faltou apoio na saída porque evitavam muito de falar qualquer coisa pra mim. Meu pai e minha mãe, eu sei que não era isso que eles queriam e eu entendo perfeitamente o lado deles né, uma situação difícil. Por um lado eles sabiam que o filho deles estava muito mal, por outro sabiam que o filho estava indo pro mundão começar do zero. Com certeza rezaram e comemoraram muito quando as coisas começaram a dar certo para mim nessa nova vida. Eu mesmo ainda não sei como me sinto. Sinto alívio, mas ainda é estranho. Passar tanto tempo num lugar e depois sair, não posso negar a sensação de nostalgia repentina que as vezes bate. Admitir que eu precisava sair foi mais difícil do que sair, afinal o mundo corporativo também não é livre de problemas, mas é muito diferente.
RR: O cansaço que você sentiu, ele veio antes da sua decepção com o trabalho ou foi tudo junto?
Matheus: Foi tudo junto porque a gente está cansado, mas acaba não percebendo, vai vivendo ali no piloto automático o que torna tudo mais difícil. Mas o cansaço sempre esteve ali, os problemas, as Red Flags, os sinais de que eu não estava bem.
RR: Fora os clássicos da bipolaridade, você teve algum sintoma? Reações que o nosso corpo tenta avisar que a gente não tá bem?
Matheus: Eu acho que de sintoma físico, eu diria insônia, insônia de enlouquecer.
RR: Quando você foi diagnosticado com bipolaridade, isso te aliviou um pouco porque conseguiu nomear isso que você sentia ou isso te deu medo? Como foi esse processo?
Matheus: Eu senti raiva porque eu achava que era “só” depressão. Então quando mudou o diagnóstico fiquei irritado, mas depois com certeza veio o alívio. É mais fácil quando você sabe com o que você está lidando, então dá pra você ler sobre, dá pra você entender como é o tratamento, saber que é pra vida toda. Eu não sei como falar isso, mas se eu tivesse a escolha de ter o Transtorno Bipolar ou não ter, por pior que pareça, eu preferia ter, porque eu já me identifico com isso. Eu sou uma pessoa muito criativa, eu gosto de escrever, faço poesia, desenho, e penso que se tivesse que abrir mão dessa parte de mim (que pra mim é tão preciosa), pra não ter o Transtorno Bipolar, eu não abriria mão.
RR: O que você acha que te salvou nessa situação da sua vida?
Matheus: Nesse recomeço mesmo da minha vida foi estar com a Juliane, minha esposa. Eu nem sei se ela tem noção disso, mas no final da carreira ela estava comigo, enquanto eu ainda estava trabalhando, depois que saí desempregado e até conseguir algo novo… ela sempre esteve ao meu lado. Eu acho que não teria saído se não fosse o apoio dela. Foi algo decisivo e, para melhorar, estar com ela me ajudou a finalmente me entender. Então é um círculo completo.
RR: Você disse que se não fosse por ela, você talvez não teria tomado a decisão de sair. O que você poderia falar pro pessoal que não tem, por alguma razão, essa rede de apoio?
Matheus: Eu acho que, no mundo que a gente vive com oito bilhões de pessoas, não tem como nascer sozinho, é muito difícil a gente estar sozinho, a menos que a gente queira. E se você quer estar sozinho, tá tudo bem também! Você escolhe viver sozinho e seguir seu rumo. Agora, se você está sozinho mas não gostaria de estar, fique mais atento ao seu redor. Só tentem prestar mais atenção nas coisas simples da vida. O suficiente é muito relativo: o suficiente de amor, de felicidade, de dinheiro, é algo muito relativo, e dependendo de como for sua régua, nunca vai existir um suficiente. No meu caso, eu consigo ser feliz financeiramente com bem menos que ganho hoje no CLT. De repente você já tem tudo que gostaria, só não consegue perceber. Então tentem perceber as coisas, o ambiente, sentir, viver. Não fique só esperando mais e mais.
na hora que eu comecei a trabalhar, eu pensei: “Yes, deu certo!”. Uma outra coisa engraçada é que no mundo corporativo as pessoas têm seus padrões também, tanto que no começo eu fui sem piercing, camisa social de mangas compridas, quis causar a boa primeira impressão. Mas nem se compara esse padrão imposto com os padrões exigentes do militarismo. Hoje em dia a galera olha minhas tatuagens e pensa que sou apenas um rockeiro, então até nisso me sinto mais livre. Pensar que quando eu fui mandar os documentos para o meu primeiro registro, aos trinta e poucos anos, eu tive que falar para moça do RH: “É o meu primeiro registro mesmo, não estranhe, minha carteira de trabalho não tem nada”.
RR: O que você nunca imaginou que ia curtir e hoje curte em relação ao CLT?
Matheus: Fundo de garantia. Eu nunca tive e esses benefícios são interessantes. Até que ponto a estabilidade vale a pena, sabe? Porque eu trabalhei quatorze anos e saí sem nada, então, tudo tem prós e contras mesmo, não adianta.
RR: O que você não quer mais romantizar sobre o trabalho?
Matheus: Eu acho que essa questão da identificação, se identificar como pessoa, e não como aquilo que você faz. Você é mais que só um cargo ou uma função. Essa é uma tristeza que, felizmente, eu não vou carregar nunca.
RR: O que é inegociável pra você não se perder de você?
Matheus: Minha paz de espírito. É relativo de onde ela vai vir, pode ser de qualquer lugar, mas ela tem que estar ali.
RR: Qual foi a melhor parte desse seu recomeçar?
Matheus: Eu acho que a melhor parte de recomeçar é recomeçar. É como se eu estivesse sendo jovem de novo, não que eu seja velho, mas isso dá um gás, um ânimo na vida, sabe? Parece que, quanto mais velho, mais a gente para de arriscar e vai entrando no automático, só trabalho e dinheiro. E esse recomeço me deu todo um gás. Recomeços são incríveis. A gente é a fagulha que tem aqui dentro da gente, que precisa se manter acesa. Então pra mim foi maravilhoso. Sem romantizar, há muitos percalços, mas vale muito a pena. Na verdade ainda estou recomeçando, porque nem quero colocar um fim ou pontuar demais essa jornada. É um recomeço que vamos ver até onde vai. Pode ser recomeço pra sempre e sem problema nenhum com isso, é tão gostoso viver o processo. A gente tem o hábito de não viver o processo. A famosa “ânsia de ter e o tédio de possuir”.
RR: Depois de anos sendo “o policial”, quem é o Matheus hoje?
Matheus: Em cada momento da vida, vou dar respostas diferentes. Mas o Matheus hoje é uma pessoa que gosta muito de viver, o que é muito impressionante comparado com o Matheus de tempos atrás. Tem ânsia por descobrir, por aprender, por conhecer coisas novas e quer viver ainda mais.
“O Matheus de hoje é um cara que começou a ter medo de morrer. Era algo que eu não nunca tive e eu só fui ter quando eu vi que a vida era legal. Então, isso é o que marca e define o Matheus de hoje”.
Se você chegou até aqui, talvez esteja com aquele nó na garganta que aperta e, ao mesmo tempo, liberta. Porque o que a história do Matheus faz é isso: ela bagunça certezas e planta perguntas. Quantas vezes a gente continuou em algo que já não era nosso, só porque parecia mais fácil do que recomeçar?
Matheus saiu da farda, mas manteve o fôlego. Não saiu ileso, mas saiu vivo. Com uma nova chance de recomeçar. E às vezes, isso já é tudo.
Todo recomeço é um pouco mentira e um pouco milagre.
Você não precisa se reinventar inteira.
Nem mudar o corte de cabelo, o feed, o signo.
Recomeçar não é sobre começar do zero —
é sobre continuar diferente.
Com mais tato. Menos
pressa. Mais você,
menos o mundo.
Não é sobre onde você vai parar.
É sobre não se abandonar no meio do caminho.
Essa foi a nossa tentativa de (re)começar com você.
Se quiser, volta na próxima.
Com afeto e um pouco de caos,
REVISTA
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