A idolatria da pressa e a mensuração da produtividade individual
Gostaria de entender quando foi que nós, humanos, começamos a valorizar a vida corrida e os modos automáticos no qual todos nós vivemos. Mas, entendo a nossa raça humana, passaram a validar quando perceberam que “tempo é dinheiro” e como todo mundo quer ficar rico, a vida se tornou uma grande maratona.
Zygmunt Bauman chamou de “modernidade líquida”: não existe limite, tudo é muito rápido e tudo se molda, se adapta. Nós somos frequentemente bombardeados por necessidades de aprender, se reinventar, aprimorar habilidades. A “ameaça representada pela globalização” fala baixinho no ouvido dizendo que a mudança é inevitável.
Para personalizar essa situação, há sempre um cidadão do bem nas redes sociais que faz questão de mostrar que está “sempre fazendo mais”. O famoso “trabalhe enquanto eles dormem”, sabe? Aí junta um monte desses no nosso feed para nos deixar cada vez mais com sentimentos de insuficiência por não estarmos fazendo tanto quanto eles, ansiosos porque se não corrermos mais do que já estamos, vamos ficar para trás. É triste, porque não podemos parar…e não aguentamos mais correr.
É fato que, na cultura do corre corre, onde tudo é para ontem, é urgência, acompanhar um ritmo fica cada vez mais difícil. Em uma das algumas leituras que fiz para escrever um texto, encontrei um trecho do livro Positividade Tóxica de Svend Brinkmann que diz o seguinte:
“Em teoria, os aparelhos tecnológicos e digitais fazem ganhar tempo (…) mas o efeito se inverte quando, na verdade, o tempo que ganhamos é empregado em mais tarefas e preenche ainda mais uma agenda já lotada.”
Aqui eu faço um corte para dizer que desinstalei as redes sociais do meu celular e só tenho acesso a elas no horário de trabalho, porque trabalho com isso.
Gente, como isso é real! Existem aplicativos de celular que enviam e recebem mensagens instantaneamente, mas isso não quer dizer que precisamos responder durante o nosso sagrado banho, durante as refeições ou até pior…dirigindo. Há uma pesquisa realizada pelo Laboratório de Psicofísica da USP que mostra que 90% dos motoristas usam o celular enquanto dirigem e demonstra que 73% das causas de acidentes de trânsito são pelo uso do aparelho. Eu preciso considerar o fato de existirem trabalhos que precisam do celular? Sim, mas sei também que você não trabalha com isso e já respondeu alguém enquanto dirigia.
Desacelerar não é perder tempo, é ganhar!
Você já se sentiu culpado por, em algum milagre do tempo, dar uma descansada, se permitir não fazer nada? Eu frequentemente me sentia assim quando, por um instante, eu parava. Até meu horário de almoço (que é lei), eu me sentia esquisita por estar dando uma pausa. Ao mesmo tempo, meus pensamentos me acalmavam:
“Para doida, você pode descansar sim”
E nessa “lenga lenga”, resolvi estudar para entender melhor esse sentimento esquisito de culpa.
A culpa é um sintoma de um sistema que mede nosso valor pelo quanto produzimos e não por quanto vivemos a vida. Está enraizado algo como:
“Se não estou produzindo, não sou útil. Se não sou útil, não mereço descansar.”
É um sentimento de medo de ser visto como inútil e como preguiçoso, improdutivo. Já que “tempo é dinheiro” e a ação é cheia de valor — fazer uma pausa é estar fracassado, de acordo com a nossa sociedade. Já ouviu aquela frase: “Quem não é visto, não é lembrado”? É por isso que tanta gente aparece nas nossas telas mesmo executando uma rotina mega lotada. O medo de ficar invisível ou de se tornar esquecido é motivo de muitas ansiedades atualmente.
Eu vi e também sinto: às vezes, eu só quero fazer uma pausa, pegar meus gatinhos no colo, ver como a cor das folhas das árvores fica ainda mais linda quando o sol bate nelas. E tudo isso sem me sentir culpada.
Desacelerar virou sinônimo de “esquisitice”. A gente sabe que precisa parar um pouco, mas, muitas vezes, não sabemos como. Quando tentamos, nossos malditos pensamentos viram um alto-falante para nos atormentar. Mas, se pararmos só um cadinho para observar, o que a gente mais queria era conseguir respirar sem sentir que devia estar fazendo outra coisa. Não é desacelerar para preencher o tempo vago com rede social ou um projeto novo. É para voltar a atenção para minha presença, meu corpo, minha emoção no agora. Sentar comigo sem cronômetro, uma pausa, fazer um chá de hortelã para dar uma paz ao corpo, sentir o aroma da erva.
Então, se você me procurar e eu não responder na hora, talvez eu esteja só fazendo nada com os meus gatos. Ou sentindo o cheiro do chá. Ou reparando que o céu às vezes fica meio rosa depois das cinco. Não é descuido. É cuidado. Comigo e com a minha sanidade — que, sinceramente, anda precisando de folga também.
Próxima sessão: Grana e Trampo